domingo, 4 de janeiro de 2015

04/01/15 - Domingo - 10º dia

Buenas, pessoal!
Sob cerração saímos hoje pela manhã do Camping das Pedras, em Marques de Souza, para cumprirmos o último dia da nossa jornada ciclística rumo ao Salto do Yucumã, no município de Derrubadas, divisa com a Argentina.
Mas a trégua do sol foi curta. Poucos quilômetros adiante apareceu com força e vigor, e se transformou no fator determinante do ritmo que impusemos à pedalada. Enquanto o protetor solar deu conta do recado, pedalamos. Todavia, com a temperatura subindo rapidamente, e o calor que emanava no próprio asfalto, já em Lajeado (30 km à frente) fizemos uma parada estratégica, à sombra de árvores bem copadas, para darmos um refresco ao lombo ardido.


Logo depois, cruzamos a ponte sobre o Rio Taquari, que traduzia o tempo dos últimos dias: águas barrentas em função de tanta chuva. Parecia chocolate derretido.



E mesmo sob o sol do meio-dia, aproveitávamos cada descida para embalarmos as bicicletas e nos aproximarmos do ponto de parada para o almoço: o Restaurante Rosinha, em Fazenda Vila Nova. Se a foto abaixo for ampliada (basta clicar em cima dela e optar vela visualização em tamanho grande), aparecerão o Paulo Augusto e o Luiz Eduardo muitos metros à minha frente, e eu a 42 km/h tentando alcançá-los. 30 anos a menos fazem diferença... 


Chegamos no tal restaurante às 12h30min, almoçamos, encontramos uma bela sombra nos fundos do posto de combustível, e só retomamos a pedalada às 15h30min, depois de uma sesta providencial deitados sobre o gramado que havia debaixo das árvores. O calor realmente desanimou-nos a voltar à estrada antes desse horário.
Vencendo lentamente o trecho, subindo as coxilhas de um lado para descê-las do outro, fomos encurtando os 95 km que tínhamos que percorrer para finalmente chegarmos às portas de Montenegro.
Para amenizar o calor insuportável, valia de tudo: na parada reproduzida na foto abaixo o recurso foi uma fatia de melancia gelada. Já estávamos em Tabaí, e a profusão de tendas vendendo produtos coloniais e frutas da estação veio em nosso favor.


Mais adiante, a primeira placa indicativa do nosso destino: Montenegro!


Ingressamos na RS-287, em Coxilha Velha, dispostos a vencer, em 1 hora os 18 km que nos separavam de casa.
Mas... quem podia imaginar que furaria a câmara traseira da minha bicicleta? Senti o pneu murchando devagarzinho, a bicicleta ficando cada vez mais pesada, avisei aos guris dos problema e passei a torcer que conseguisse chegar rodando até o posto de combustível existente no Bairro Cinco de Maio, a exatos 2 km de casa. Cheguei! De arrasto, mas cheguei. Com ânimo ainda para fotografar nosso cartão de visita mais conhecido, o Morro São João. É bonito de qualquer ângulo!


Enquanto calibrava o pneu, o Paulo Augusto se parou do meu lado e a câmara traseira da sua bicicleta também estava furada! Que coisa! Resolvemos que perderíamos muito tempo para consertar as duas bicicletas estando apenas a 2 km de casa e fomos empurrando as magrelas lomba acima no Bairro Cinco de Maio.
É como sempre dizem, "só termina quando acaba". Jamais poderíamos prever que tão próximos do final da nossa cicloviagem teríamos esse problema. E que chegaríamos empurrando duas das três bicicletas por conta de câmaras furadas.
Mas, enfim, estamos em casa. Queimados do sol, cansados, com todo o desmonte para ser providenciado, mas detentores de mais uma experiência de inestimável valor, que foi essa percorrida de 846 km rumo ao Salto do Yucumã.

Que venham as próximas aventuras, os novos destinos. Que surjam novos adeptos das cicloviagens e do cicloturismo. Que possamos transformar nosso Estado num celeiro de cicloviajantes, e que a acolhida a todos os turistas - que nos é tão peculiar - se estenda àqueles que chegam em nossas cidades montados sobre suas bicicletas, esse jeito barato, ecologicamente correto, silencioso, divertido, democrático e desafiador de conhecermos o mundo ao nosso redor.

Obrigado a todos que nos deram o prazer da sua companhia como caroneiros virtuais da cicloviagem narrada neste blog. Foi um prazer compartilhar desses momentos com vocês.

Um grande, um enorme, um... Bait'abraço!

03/01/15 - sábado - 9º dia

Buenas, pessoal!
A noite em Tio Hugo, no Hotel "Sou do Sul", foi das melhores! Como o quarto estava voltado para os fundos, ou seja, o trânsito da BR-386 não nos importunava, pudemos dormir com a janela aberta sem ouvirmos barulho algum vindo da rua. Quando terminei de redigir a postagem do blog do dia 02/01 e retornei ao quarto, os guris dormiam profundamente. Exaustos.
Hoje de manhã, bem em frente ao hotel, vimos o primeiro acidente de trânsito. O motorista da carreta que aparece na foto dormiu na direção, e acabou saindo da estrada. Fazia apenas 1 hora que tinha acontecido. Acordou na marra, a criatura.


E para quem curte muito as belezas dessas percorridas, como eu, qualquer parada na beira da estrada é motivo para um olhar perdigueiro. Encontrar flores entre as capoeiras é ver a obra de Deus nos lugares mais simples e despretensiosos.


Falando em Deus, me lembrei de comentar: em todos os dias, ao ingressarmos na estrada, fazemos o sinal da cruz, rezamos um Pai-Nosso e uma Ave-Maria e pedimos bênçãos e proteção na nossa jornada. Certamente Eles estão olhando por nós...

Já na reta final da nossa pedalada, com a foto abaixo quero deixar registrado a profunda admiração que tenho pela amizade que une esses dois guris, o Paulo Augusto e o Luiz Eduardo. Primos-irmãos nascidos com apenas 23 dias de diferença, embora fisicamente totalmente diferentes, nutrem uma amizade recíproca invejável. Brigam como quaisquer amigos, mas em instantes já estão zoando entre si, e foram a companhia um do outro nesses dias de jornada ciclística. É realmente admirável a cumplicidade e a confiança recíproca. Cartada certeira a minha de convidar o Luiz Eduardo para pedalar conosco - modéstia à parte.


No caminho entre Tio Hugo e Marques de Souza (nossa parada de hoje), antes de iniciarmos a forte descida em Pouso Novo, encontramos um colecionador de automóveis antigos. Ah, não resisti à tentação de fotografar um VW 4 portas 1969, um Maverick 6 canecos e um Dodge Dart!




A descida da serra de Pouso Novo foi veloz e emocionante. Conseguimos acompanhar sem problemas o fluxo dos veículos, despencando lomba abaixo a 60 km/h. Quando, no último trecho, soltamos os freios totalmente, minha bicicleta chegou rapidamente a 67 km/h. Se tivesse liberado a descida desde o cimo do cerro, certamente teríamos atingido 80 km/h. Mas a cautela adotada na primeira parte da descida permitiu adequado controle das bicicletas.
E após uma longa pedalada de 100 km, em um dia de calor intenso, resolvemos abrir mão de percorrer mais 30 km até Lajeado e acabamos ficando em Marques de Souza novamente.


Oportunidade para finalmente montarmos o primeiro acampamento da viagem, já que o programa foi totalmente alterado por conta da chuva intensa que caiu desde nossa largada, no dia 26/12. O lugar escolhido foi novamente o Camping das Pedras, mas desta vez o banho de rio foi restringido: tanta água descendo dos morros elevou o nível do Rio Fão, e os guris tiveram que se contentar em banhar-se bem próximos à margem. Agora, que o lugar é digno de ser conhecido, por quem gosta de natureza, sossego, sombra, água de vertente e silêncio, ah, disso não tenho a menor dúvida.


Fui conferir, no velocímetro da bicicleta do Luiz Eduardo, a distância percorrida até hoje: já são 751 km desde a largada no dia 26/12. Que alegria até agora estar dando tudo certo, todos bem fisicamente, as bicicletas sem maiores problemas, realmente será uma viagem inesquecível. Só está faltando a companhia do César, nosso velocista subidor de lombas, que deu um laço em nós em termos de preparo físico, e que foi, nos cinco dias em que esteve conosco, o melhor dos parceiros de jornada.
Bait'abraço!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

02/01/15 - 6ª-feira - 8º dia

Buenas, pessoal!
Há mais de uma semana na estrada, nessa viagem muito legal de bicicleta ao Salto do Yucumã, temos curtido com muita intensidade cada um dos momentos compartilhados. Seja quando vemos uma paisagem bonita, quando conhecemos alguém interessante, quando comemos alguma iguaria típica dos locais por onde transitamos, quando precisamos resolver problemas juntos, a la Três Mosqueteiros (um por todos; todos por um!) - lembrando que até anteontem éramos Quatro Mosqueteiros, pois o César Seghetto estava junto -, tudo sempre tem sido motivo de aprendizado, de troca de experiências, é fantástico isso.
Bom. O nosso dia:
Mais uma vez nos despedimos com sentimentos de gratidão ao César, à Luciane e à Fabíola pela acolhida que tivemos em Sarandi. Todos gente boa demais!
Adivinhem? Chovia na partida. Aliás, choveu até as proximidades de Carazinho. Me disseram que a chuva acumulada nesses dois primeiros dias de janeiro já é mais da metade da previsão para o mês. Que tal...
Por sorte, quando furou a câmara do pneu dianteiro da bicicleta do Paulo Augusto, em Carazinho, havia estiado, e pudemos fazer o conserto sem maiores problemas - aproveitando, claro, uma poça d'água à beira da rodovia para descobrirmos o local do furo.


Almoçamos novamente no Posto RHRiss (mesmo local da nossa parada na ida), e, na sala dos motoristas, tiramos aquela soneca depois do meio-dia. Sentados nas poltronas, sujos, molhados e fedorentos...
Às 14h retomamos a pedalada, e o céu com algumas nesgas de sol e a mudança do vento (que passou a soprar de oeste para leste) prenunciou que o tempo firmaria. Finalmente! Depois de dias de chuva, vento, frio, enfim um dia com cara de verão gaúcho: sol e calor. Ufa!
Mas os rios, arroios, sangas, transbordaram. Passamos num em que o curso d'água virou uma corredeira, marrom e barulhenta.


Claro que os dois guris não puderam admirar a vista de cima da ponte... tiveram que descer e molhar os pés na água.


Eu, de butuca em cima da ponte, monitorando os dois, também posei para um close. Apesar da água muito barrenta, o riozinho estava com personalidade hoje.


E uma foto peculiar: quantas vezes já nesta viagem encarreiramos as bicicletas para um descanso, um gole d'água, uma urinada... Mais bonito ainda ficava quando a bicicleta do César integrava o pelotão. Sem dúvida, temos chamado a atenção na estrada. Todos os dias são dezenas de buzinadas e saudações dos motoristas, e não fomos hostilizados em nenhum momento desde a partida. Claro que estamos fazendo nossa parte, andando sempre que possível no acostamento, em dias de chuva com o sinalizador acionado, sempre em fila, minimizando os riscos que a estrada ao natural já impõe a quem por ela trafega. 


Após 80 km percorridos, chegamos em Tio Hugo, cidadezinha de 5.000 habitantes a 30 km de Soledade. Resolvemos pernoitar por aqui mesmo, no Hotel que tem o simpático nome de "Sou do Sul". Fomos muito bem acolhidos pelos atendentes, e já consegui emprestada a máquina de lavar roupa e a secadora para botarmos em dia nossos trapos, úmidos por tanta chuva. Com a possibilidade do tempo firmar definitivamente a partir de amanhã, é provável que cheguemos em Montenegro, no próximo domingo, com alguma roupa seca nos alforjes. Porque a situação estava ficando complicada.


E vejam que belíssimo pôr-do-sol no altiplano riograndense!


E, da outra janela do Hotel, uma belíssima lua concorrendo com o sol poente para pintar o céu com matizes de outra cor. Somos uns privilegiados.


Amanhã, nossa intenção é chegarmos em Marques de Souza; se possível, até em Lajeado. Para que, no domingo dia 04, após 10 dias, retornemos dessa viagem fascinante pelos pagos gaúchos em busca das belezas do Salto do Yucumã (ou do "Salto del Yucuna", como dizem do lado de lá do Rio Uruguai nossos irmãos argentinos).
Bait'abraço!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

01/01/15 - 5ª-feira - 7º dia

Buenas, pessoal!
Ontem à noite, num hotel de posto de combustível, à beira da BR-386, em Seberi, a chegada de 2015 também teve comemoração, comes e bebes! Chegados na cidade à tardinha, quando muitos supermercados já estavam fechados, tivemos que improvisar no banquete da virada! Essa é a foto da mesa farta que o Paulo Augusto, o Luiz Eduardo e eu montamos no quarto. 


E estava bom!

O problema foi a chuva que caiu ininterruptamente desde ontem à tardinha. Quando nos levantamos hoje de manhã, desci até o posto de combustível para ver como estava o tempo e me assustei com a cerração, com a chuva guasqueada pelo vento e com o frio inesperado que fazia em Seberi. Demoramos para nos animar a iniciar a pedalada rumo a Sarandi. Às 08h30min finalmente giramos o pedivela das bicicletas.
Que frio! Quase duas horas depois a temperatura estava em 17ºC, a chuva inclemente molhando-nos totalmente, encharcando os alforjes e seu conteúdo, deslubrificando as bicicletas, nos judiando morro acima pelo esforço e morro abaixo pelo enregelamento.
Nessas condições, o primeiro a acusar o pealo foi o Paulo Augusto: em determinado momento, parou na rodovia e sua boca estava roxa de frio, os dedos das mãos amortecidos, e tremia todo! Rapidamente o vestimos com outra camiseta de algodão, por baixo da roupa já molhada, para estabilizar a temperatura corporal, fizemo-lo ingerir glicose, e deixamos que ele disparasse na frente para reaquecer-se. Foi um santo remédio! Quando nos reagrupamos para o almoço, o piá já estava fazendo suas piadas infames, dançando e cantando, como sempre faz em cada parada.
Aí trocamos a roupa molhada por roupa seca, e fomos almoçar.
E coragem para recolocar a vestimenta molhada e retomar a pedalada! Eu só ouvia, de longe, os gritos dos dois guris, para espantar o frio da arrancada.
Foi tanta chuva que dezenas de cachoeiras se formaram na beira da estrada. Como esta região tem o relevo bastante acidentado, era evidente que esse mundo d'água desceria as encostas. 


Aí quem se queixou foi o Luiz Eduardo. Dor nos joelhos. Também, pudera, 60 km percorridos só de manhã, nessas condições, judiaram não só do equipamento, mas também de quem conduzia as bicicletas. O ritmo ficou mais sereno e lentamente fomos aliviando as dores.
Somente à meia tarde a chuva deu uma trégua e os vales apareceram novamente diante de nossos olhos. Já disse mas não canso de repetir: é uma região belíssima do nosso Estado! E produzem muito vinho por aqui, há vinícolas, cantinas e tendas de produtos coloniais em todo o trecho. Vale a pena conhecer!


E vá pedal!


Finalmente às 17h, ensopados, exaustos, com as bicicletas ringindo, os alforjes encharcados (não há capa que resista a chuva dessa intensidade) chegamos em Sarandi, após 80 km percorridos.
O César Seghetto, a Luciane e a Fabíola já nos esperavam com o mate pronto, e outra vez ficamos constrangidos por tanta generosidade na acolhida.
Feriado, padarias e supermercados fechados, o jeito foi procurarmos uma cantina à beira da estrada e montarmos nosso café/janta com pão caseiro, copa, queijo, suco de vinho. Tudo fatiado e aquecido na chapa do fogão, foi uma lauta refeição. Restauradora, eu diria.

Já percorremos cerca de 580 km desde nossa saída, e, afora o furo na câmara do pneu da bicicleta do César, nenhuma delas apresentou qualquer problema mais sério, que não um ou outro parafuso solto, os espelhos frouxos, a deslubrificação do sistema de transmissão e marchas por conta da chuva. Prova do acerto na revisão das bicicletas e da qualidade dos equipamentos. Estou muito satisfeito!
Amanhã, o destino será a cidade de Mormaço, a 80 km daqui de Sarandi. Com previsão de muita chuva novamente. Já não estranhamos mais. Se não chover, algo está errado... hehehe...

Ah, encontrei a foto da Prefeitura de Sarandi ornamentada para o Natal. Fotografei o prédio quando por aqui passamos, na ida da viagem, mas o registro ficou na memória interna na máquina, só hoje a localizei. Olhem que espetáculo!


Bait'abraço!